A Expansão (Aceleração) do Universo e o Prêmio Nobel de Física
(PNF) de 2011.
O PNF de 2011 foi concedido aos
astrofísicos norte-americanos Saul Perlmutter
(n.1959), Brian P. Schmidt (n.1970) e Adam Guy Riess
(n.1967) pela descoberta da expansão do
Universo. Perlmutter recebeu a metade do valor do
prêmio, e Schmidt e Riess, dividiram a outra
metade. É também oportuno registrar que
esses três cientistas já haviam recebido o Shaw
Prize in Astronomy de
2006 por essa mesma descoberta. Vejamos,
então, a vida e os trabalhos desses nobelistas.
Perlmutter
nasceu no dia 29 de setembro de 1959 em Champaign-Urbana,
no Estado de Illinois, nos Estados Unidos da America
(EUA). Ele estudou o primário no Greene Street Friends School e o curso secundário (“High
School”) no Germantown Friends School, ambos na
Filadélfia. Ele graduou-se em Física na Harvard
University, em 1981, com o grau
AB-magna cum laude. Depois foi para a Universidade da California
(UC) para trabalhar com o físico norte-americano Richard A. Muller
(n.1944), com quem desenvolveu sua Tese de Doutoramento intitulada An Astrometric
Search for a Stellar Companion
to the Sun e defendida, em 1986, naquela
Universidade. Nesta Tese, Perlmutter descreveu o
desenvolvimento e o uso de um telescópio automático projetado por Muller em
busca da estrela Nêmesis e de supernovas,
das quais falaremos mais adiante.
É interessante destacar que a Nêmesis teve sua existência postulada, em 1984 (Proceedings of the National Academie of Sciences 81, p. 801), pelos paleontologistas
norte-americanos David M. Raup (n.1933) e Jack
John Sepkoski (1948-1999) ao analisarem a
periodicidade (26 milhões de anos) da intensidade de extinção, nos últimos 250
milhões de anos, de famílias de fósseis marítimos. Ainda em 1984, em trabalhos
independentes, os astrônomos norte-americanos Daniel P. Whitmire
e Albert A. Jackson IV (Nature 308,
p. 713) e Marc Davis, Piet Hut
e Muller (Nature 308,
p. 715) propuseram a hipótese de que o Sol poderia ter uma companheira
invisível (respectivamente, anã marrom
e anã vermelha) em uma órbita
altamente elíptica, a uma distância de 1,5 anos-luz, perturbando os cometas que
visitam a parte interna do sistema solar (nuvem
de Oort) e, portanto, podendo provocar impactos
fatais sobre a Terra. Em virtude disso, essa estrela recebeu o nome de Nêmesis (“Estrela da Morte”), nome de uma deusa
grega que representava a vingança. A Tese de Perlmutter, contendo observações realizadas no Observatório Leuschner,
da UC, objetivava detectar essa estrela, porém, não teve sucesso. Registre-se
que, em 2002 (Geological Society of America Special Paper 356, p. 659), Muller especulou
que a Nêmesis foi perturbada, há 400 milhões de anos,
por uma estrela em órbita com uma excentricidade de 0.7. Mais
detalhes sobre a Nêmesis
que, até o presente momento
(10/5/2012), ainda não encontrada), ver: wikipédia/Nemesis_(hypothetical_star).
Ainda sobre Muller,
observe-se que ele e o físico norte-americano Luís Walter Alvarez (1911-1988;
PNF, 1968), em 1968, haviam apresentado a ideia de
uma busca automática de supernovas (SN).
Também Muller, juntamente com os físicos norte-americanos George Fitzgerald Smoot III (n.1945; PNF, 2006) e Marc V. Gorenstein
descobriram, em 1977 (Physical Review Letters 39,
p. 898) uma anisotropia na Radiação Cósmica de Fundo de Microonda
(RCFM) (“Cosmic Microwave
Background” – CMB), que significava um primeiro indício da expansão do Universo, finalmente encontrada, em 1998, como veremos
neste verbete.
Depois de seu Doutoramento, Perlmutter foi para o Lawrence
Berkeley National Laboratory
(LBNL) liderar o Supernova Cosmology Project
(SCP) que objetivava observar longínquas partes do Universo. Este projeto
competia com o High-Z Supernova
Search Team, um conglomerado
australiano-norte-americano, liderado por Riess e
Schmidt. Ambos os projetos observavam a SN Ia. Esse tipo de supernova
ocorre quando uma anã branca ganha
bastante massa adicional e ultrapassa o limite de Chandrasekhar-Schenberg
(ver verbete nesta série).
Schmidt nasceu em 24 de
fevereiro de 1967, em Missoula, no Estado de Montana
(EUA). Em 1980, com 13 anos de idade, ele foi viver em Anchorage, no Alaska,
onde concluiu o ensino médio (“High School”) no Bartllet High School, em 1985. Como
desde os cinco anos de idade ele gostava de Meteorologia, ele foi trabalhar no USA National Weather Service, naquela
cidade do Alaska. Porém, como ele percebeu não ser o que esperava, decidiu
estudar Física e Astronomia, então foi para a Universidade do Arizona onde obteve, em 1989, o Bacharelado nessas
duas Ciências. Depois ele foi para a Harvard
University, tendo obtido o Mestrado, em 1992, e o
Doutorado em 1993. Seu orientador de Tese de Doutorado foi o astrofísico
norte-americano Robert P. Kirshner (n.1949), na qual
ele usou a SN II para calcular a constante de Hubble (H0)
(vide verbete nesta série). Note-se que o nome Supernova (SN) foi cunhado, em
1931 [em um seminário realizado no California Institute of Technology
(CALTECH) e publicado, em 1934 (Proceedings of the National Academy
of Sciences 20, p. 254; 259; Physical Review 45, p. 138)], ministrado
pelos astrônomos, o alemão Walter Baade (1893-1960) e
o búlgaro-suíço-norte-americano Fritz Zwicky (1898-1974), para representar a explosão de uma
estrela, explosão essa que causa uma tremenda luminosidade que pode durar semanas ou mesmo meses. A SN é classificada em: SN
I, quando não contém a linha espectral do hidrogênio (H) em seu espectro
luminoso [pode ainda ser SN Ia, se contém silício ionizado (Si II), e SN Ib, se contém hélio não-ionizado (He
I)], e SN II, quando contém a linha H.
Sobre Kirshner,
ainda é interessante destacar que ele e J. B. Oke, em
1975 (Astrophysical Journal 200, p. 574), mostraram que o espectro
de uma SN I poderia ser interpretado como uma superposição de centenas de
linhas espectrais dos íons de ferro (Fe+ e Fe++). Em 1979
(Astrophysical Journal 233, p. 154), R. A. Chevalier e Kirshner investigaram a nucleossíntese (vide verbete nesta
série) da SN 1572, principalmente a remanescente em Cassiopéia A, que foi observada pelo astrônomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601) (e também
pelos astrônomos chineses e coreanos), em 11 de novembro de 1572. Em 26 de fevereiro de 1987 foi opticamente
observada, na Grande Nebulosa de
Magalhães, uma SN conhecida desde então como SN1987 A. Dois anos depois, em
1989 (Annual Review of Astronomy and
Astrophysics 27,
p. 629), W. D. Arnett, John Norris
Bahcall (1934-2005), Kirshner
e S. E. Woosley anunciaram que haviam observado vinte
(20) neutrinos provindos da SN1987 A.
Depois de obter seu
Doutorado, Schmidt realizou um Pós-Doutoramento no Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics,
entre 1993 e 1994. Em 1994, ele e o astrofísico norte-americano Nicholas B. Suntzeff (n.1952) criaram o High-Z Supernova Search Team
(H-ZSST) para detectar uma
possível desaceleração do Universo observando Supernovas do
Tipo Ia (SN Ia). Em 1995, Schmidt levou o H-ZSST para o Mount Stromlo Observatory da Australian National University.
Observe-se que, em 1995 (Astrophysical Journal Letters 438,
p. L17), Riess, W. H. Press e Kirshner estudaram o movimento de um grupo de estrelas, o
chamado grupo local, usando as formas das curvas de luz das SN Ia. Note-se que essas curvas de luz foram
medidas usando câmaras criogênicas com sensor CCD (o sensor “Charge-Coupled Device”, foi
inventado em 1970, conforme vimos em verbete desta série) que foram construídas
para observar as SN 1986G e SN 1987A, e cujos resultados foram publicados,
respectivamente, em 1987 (Publications of the Astronomical
Society of Pacifc 99,
p. 592), por um grupo de astrônomos (A. C. Phillips, S. R. Heathcote,
V. M. Blanco, D. Geisler, D. Hamilton, F. J. Jablonski, J. E. Steiner, A. P. Cowley, P. Schmidtke, S. Wyckoff, J. B. Hutchings, John L.
Tonry, M. A. Strauss, J. R. Thorstensen,
W. Honey, José Maza, M. T.
Ruiz, A. U. Landolt, D. A. Uomoto,
R. M. Rich, J. E. Grindley,
H. Cohn, H. A. Smith, J. H. Lutz, R. J. Lavery e A. Saha) liderados pelo
astrônomo norte-americano Mark M. Phillips (n.1951) e Suntzeff,
e em 1988 (Astronomical Journal 95, p. 1087), por M. M. Phillips, Heathcote, Mario Hamuy e M. Navarrete. É oportuno registrar que, em 1995, Hamuy, M. M. Phillips, Maza, Suntzeff, R. Schomer e R. Aviles (Astronomical Journal 109,
p.1) e, independentemente, Riess, Press
e Kirshner (Astrophysical Journal 438,
p. L17) anunciaram que encontram para a H0 o seguinte valor: 64 km (sMpc)-1
(1 Mpc = 3,08568025
1022 m), usando
observações do Telescópio Espacial Hubble,
lançado em 24 de abril de 1990 (ver verbete nesta série). Em 1999 (Astronomical Journal 117, p. 1175), Suntzeff,
M. M. Phillips, R. Covarrubias, Navarrete,
J. J. Perez, A. Guerra, M. T. Acevedo, L. R. Doyle, T. Harrison, S. Kane, K. S. Long,
Maza, S. Miller, A. E. Piatti,
J. J. Claria, A. V. Ahumada,
B. Pritzl e P. F. Winkler
estudaram a curva óptica da SN Ia 1998bu na galáxia M96 (NGC 3368) e
determinaram que H0 = [63,9 2.2 (interno) 3.5 (externo)] km (sMpc)-1 .
Riess nasceu no dia 16 de dezembro de 1969, em Washington, D.C. Estudou
no Watchung Hills Regional High School, em New Jersey,
formando-se em 1988. Depois foi para a Massachusetts
Institute of Technology (MIT), onde se graduou em 1992, e foi membro
do famoso Phi Delta Theta Fraternit. Sob a orientação de Kirshner,
doutorou-se na Harvard University, em 1996, tendo como objeto fundamental de
sua Tese de Doutoramento, a análise do movimento das SN Ia do grupo
local, cujo trabalho foi publicado em 1995, conforme registramos acima.
Em 1998 foi trabalhar no H-ZSST, junto com Schmidt e Suntzeff,
trabalho esse que resultou na famosa descoberta da expansão do Universo, junto com o trabalho do Supernova Cosmology Project (SCP), liderado por Perlmutter. Essa descoberta foi anunciada, em 1998 (Astronomical Journal 116, p. 1009) pelo projeto H-ZSST,
composto de Riess, Alexei V. Filippenko,
Peter Challis,
Alejandro Clocchiatti, Alan Diercks,
Peter M. Garnavich, Ron L. Gilliland,
Craig J. Hogan, Saurabh Jha, Kirshner,
B. Leibundgut, M. M. Phillips, David Reiss, Schmidt, Robert A. Schommer,
R. Chris Smith, J. Spyromilio,
Christopher Stubbs, Suntzeff
e Tonry, e confirmada, em 1999, em trabalhos
independentes, realizado também pelo H-ZSST, desta vez composto por Riess, Kirshner, Schmidt, Jha, Challis, Garnavich,
A. A. Esin, C. Carpenter,
R. Grashius, R. E. Schild,
P. L. Berlind, J. P. Huchra,
C. F. Prosser, E. E. Falco,
P. J. Benson, C. Briceno, W. R.
Brown, N. Caldwell, I. P. Dell´Antonio,
Filippenko, A. A. Goodman,
N. A. Grogin, T. Groner, J.
P. Hughes, P. J. Green, R. A. Jansen, J. T. Kleyna, J. X. Luu, L. M. Macri, B. A. McLeod, K. K. McLeod, B. R. McNamara, B. McLean, A. A. E. Milone, J. J. Mohr, D. Moraru, C. Peng, J. Peters, A. H. Prestwich, K. Z. Stanek, A. Szentgyorgyi e P. Zhao (Astronomical Journal 117, p. 707) e, pelo projeto SCP,
composto por Perlmutter, G. Aldering,
G. Goldhaber, R. A. Knop,
P. Nugent, P. G. Castro, S. Deustua,
S. Fabbro, A. Goodbar, D.
E. Groom, I. M. Hook, A. G. Kim, M. Y. Kim, J. C.
Lee, N. J. Nunes, R. Pain, C. R. Pennypacker,
R. Quimby, C. Lidman, R. S.
Ellis, M. Irwin, R. G. McMahon, P. Ruiz-Lapuente, N. Walton, B. Schaefer,
B. J. Boyle, Filippenko, T. Matheson,
A. S. Fruchter, N. Panagia,
H. J. M. Newberg e W. J. Couch
(Astrophysical Journal 517, p. 565). Esses dois artigos
apresentaram o seguinte valor para H0 = (62 2) km (sMpc)-1
(1 Mpc = 3,08568025
1022 m).
Concluindo este verbete é
interessante registrar que essa aceleração
do Universo foi explicada pela presença de matéria e energia
escuras no Universo. Registre-se que a matéria escura (ME) foi
descoberta em 1937 (Astrophysical Journal 86, p. 217), por Zwicky
ao examinar os aglomerados (“clusters”) de galáxias, em particular o aglomerado
Coma. Uma primeira evidência experimental da ME foi anunciada, em 2006
(Astrophysical Journal 648, p. L109), por Dougle
Clowe, M. Bradac, A. H.
Gonzalez, M. Markewitch, S. W. Randall,
C. Jones e D. Zaritsky, e decorreu da colisão de dois
aglomerados de galáxias, ocorrida há 100 milhões de anos, colisão essa hoje
conhecida como Bullet – 1E0657-556. Por sua vez, o
termo a energia escura (EE) foi cunhado pela primeira vez em 1998/1999
[arXiv:astro-ph/0108103v1, August (1988); Physical Review D60, p. 081301 (1999)], por Dragan Huterer e Michael S. Turner (n.1949), e ratificado por
Turner, em 1999 (The Galactic Halo 165, p. 431). Note-se que a EE é uma nova representação da constante
cosmológica (Λ) proposta pelo físico germano-suíço-norte-americano
Albert Einstein (1879-1955; PNF, 1921), em 1917 (vide verbete nesta série).
Para maiores detalhes sobre o discutido
neste verbete, ver os seguintes sites:
en.wikipedia.org/wiki/Supernova; Adam_Riess; Brian_Schmidt; Mark_M._Phillips; Nicholas_B._Sunzteff; Robert_Kirshner; Saul_Perlmutter. Ver, também, as Nobel
Lectures (08/12/2011): Saul Perlmutter, Measuring the
Acceleration of the Cosmic Expansion Using Supernovae; Adam Guy Riess, Supernovae Reveal an Accelerating Universe;
Brian P. Schmidt, The Path to Measuring Cosmic Acceleration.
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