Smoot III, Schenberg e a Physical
Review.
Em verbete desta série vimos o trabalho científico do astrofísico
norte-americano George Fitzgerald Smoot III (n.1945;
PNF, 2006). Neste verbete, destacaremos um aspecto curioso que ocorreu durante
a formação pós-graduada de Smoot III e que ele
próprio descreveu no livro Dobras no
Tempo (Rocco, 1995), escrito em parceria com o escritor norte-americano Keay Davidson (1942-2010). Para a descrição desse fato
curioso, vamos reproduzir alguns parágrafos do Capítulo 9 do livro referido acima
(destaques meu): - Quando eu (Smoot III) era
estudante de pós-graduação no MIT (Massachusetts Institute
of Technology), meu campo de pesquisas era a física de
partículas. Meu orientador de tese e diretor de pesquisa era um homem muito enérgico,
entusiástico e amigavelmente mal-humorado, David (Dave) H. Frisch (1918-1991). Em
1968, como a época de meus exames abrangentes se aproximasse, eu pedi a Dave e
a seus colegas David Bennett, de Livermore (Lawrence
Livermore National Laboratory), e Lou (Louis) Osborne que me ajudassem a praticar as
questões dos exames orais. Na sala de reuniões onde frequentemente
almoçávamos, havia uma mesa e cadeira, um grande
quadro-negro no qual eu desenvolvia as respostas para suas perguntas e uma
estante que continha todos os números da Physical Review (PR) – uma coleção de física básica. Depois de algumas sessões, eu estava
começando a me sentir mais fluente e confortável com minhas respostas, e eles
pareciam ter esgotado seu suprimento de questões. Aparentemente tentando
refletir sobre uma questão, Dave apontou para a estante e disse: - Está vendo
ali a coleção da Physical Review? Vá até lá. Eu pensei que ele ia me pedir
para pegar um número e explicar um artigo ou resultado. Em vez disso ele disse:
- Veja como a cada ano a Physical Review aumenta de tamanho. A distância
entre a capa da primeira edição de janeiro e a contracapa da última edição de
dezembro está aumentando rapidamente. Quanto tempo vai demorar até que as capas
anuais estejam se distanciando entre si mais rápido que a velocidade da
luz?
Para
poder responder a essa pergunta, Smoot III foi até a
prateleira e olhando a quantidade de páginas de cada edição, esboçou no
quadro-negro uma curva envolvendo distância entre capas anuais anos e percebeu que a
curva era representada por uma exponencial e que dobrava a cada seis (6) anos.
Assim, depois de medir o comprimento entre a primeira capa e a última capa da PR
correspondente ao ano de 1968, encontrou cerca de 1,20 m. Desse modo, se
continuassem a dobrar as páginas a cada 6 anos
conforme indicava a curva, depois de 220 anos, isto é, em 2188, as capas
estariam se separando à velocidade da luz, já que, se todos os volumes da PR
fossem colocados juntos no ano 2188,
a distância entre a primeira capa e a última capa seria
de um ano-luz (~1016 m). É interessante destacar que, em 1971, a PR passou a ser
dividida em quatro partes: A, B, C e D, não por essa razão, mas pelo
fracionamento do conhecimento da Física.
Depois de
encontrar esse valor, Dave e Osborne perguntaram a Smoot
III se esse resultado contrariava a Relatividade Especial Einsteiniana, que
afirma ser a velocidade da luz (c) no vácuo, a máxima velocidade da luz no
Universo. Essa discussão entre eles foi então
comparada com a lei de Hubble, de 1929 (vide verbete nesta série): - As galáxias se afastam uma das outras com
uma velocidade (V) proporcional à
distância (D) que as separam.
Assim, pode ocorrer uma situação em
que V > c, que não violaria a Relatividade Restrita, pois
o Universo gera espaço entre as galáxias, parecendo que elas estão se
deslocando (mas, na verdade, estão paradas), concluíram os personagens desse
fato. Essa discussão prolongou-se com eles discutindo esse possível paradoxo
envolvendo, para isso, o big bang e sua marca registrada no Universo: a Radiação
Cósmica de Fundo de Microonda (RCFM). Para detalhes dessa discussão,
ver o livro citado.
Concluindo este verbete, creio ser oportuno fazer um comentário jocoso sobre
esse possível paradoxo relativista, ou seja, que em 220 anos a velocidade do
aumento das páginas da PR ultrapassaria c. Quando eu estudava no hoje Instituto de Física da Universidade de São
Paulo, entre os anos 1968 e 1969, ouvíamos dizer que o físico brasileiro
Mário Schenberg (1914-1990) (vide verbete nesta
série), que havia sido cassado de sua Cátedra da USP, em 1964, em decorrência
de o Movimento Militar, ao se referir a esse possível paradoxo, dizia: - A possibilidade de o aumento de velocidade
das páginas da Physical Review ultrapassar
a velocidade da luz no vácuo, não causa nenhum paradoxo relativista, pois as
páginas dessa Revista não carregam informação.
Esse comentário sarcástico sobre o então ícone das revistas
cientificas mundiais, pronunciado pelo Professor Schenberg,
como o chamávamos, era baseado no fato de que qualquer fenômeno físico que não
carrega informação, pode violar a Relatividade Restrita (RR). O leitor pode ter
um exemplo dessa afirmação observando que os pontos de um feixe de elétrons chegando
numa tela de televisão podem se mover através da mesma com uma velocidade maior
que c, aparentemente violando a RR. Contudo, essa violação não ocorre, pois
esses pontos, em si, não carregam informação; nesse caso, são os elétrons, que
viajam com velocidades abaixo de c, os responsáveis pela informação traduzida
em som e imagem. [Arthur Beiser, Concepts of
Modern Physics (McGraw-Hill Book Company/Kögakusha
Company, Ltd., 1967)].
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