A Geometria Grega.
A
geometria é uma parte da Matemática
que estuda as relações entre distâncias e ângulos em figuras planas e
volumétricas. Certamente, algumas dessas relações foram estudadas por antigas
civilizações como, por exemplo, os assírios, babilônios, caldeus e egípcios.
Contudo, foram os gregos antigos que as sistematizaram.
Desde os babilônios e os
egípcios, que viveram alguns milhares de anos a.C., já se conhecia como
calcular o apótema de um círculo, ou seja, o raio de uma circunferência
inscrita em um polígono regular (p.e.: o hexágono).
Além disso, se conhecia também que em um triângulo isósceles ABC [dois lados (AB
e AC) e dois ângulos (
e
) iguais], a altitude (perpendicular baixada do vértice A), divide
a base (BC) em duas partes iguais, e que o ângulo inscrito em um semicírculo é
reto (900). Esses resultados foram sintetizados pelo filósofo grego
Tales de Mileto (c.624-c546) e conhecidos como os dois principais Teoremas de Tales:
1) A soma dos ângulos
internos de um triângulo vale dois ângulos retos (1800).
2) Um feixe de duas retas paralelas cortadas
por um transversal, forma ângulos alternos-internos
iguais.
Outros resultados também
conhecidos desde os babilônios como, por exemplo, o cálculo exato das áreas do
triângulo, retângulo, trapézio, assim como o volume do prisma, do cilindro, dos
troncos de cone e da pirâmide quadrada foram sistematizados pelo filósofo grego
Pitágoras de Samos (c.560-c.480).
Dessa sistematização, destacamos o célebre Teorema
de Pitágoras:
O quadrado da hipotenusa
(a) de um triângulo retângulo vale a soma dos
quadrados dos catetos (b, c): a2 = b2 + c2.
É interessante destacar que
esse teorema permitiu que o matemático grego Hipasus
de Metapontum [floresceu cerca (f.c.)
do Século 5
a.C.)], membro da Escola Pitagórica,
por volta de 400 a.C.,
descobrisse que a diagonal de um quadrado de lado unitário, isto é,
, não poderia ser representado por números inteiros ou
racionais, conforme a crença dos pitagóricos segundo
a qual os números inteiros e racionais
governam o mundo, ou seja, que a ordem universal era a aritmética.
Note que, segundo nos fala o filósofo austríaco Sir Karl Raymund
Popper (1902-1992) em seu livro Conjecturas
e Refutações (EDUnB,
c.1972), Hipasus
teria sido jogado ao mar por essa descoberta, que seria uma traição àquele
apotegma pitagórico, e morrido em consequência
daquele ato. No entanto, existe uma versão histórica que diz haver ele morrido
realmente no mar, porém de morte natural [Margaret E. Baron, Origem e Desenvolvimento do Cálculo: A
Matemática Grega (EDUnB,
1985)]. Ainda é oportuno relatar que Pitágoras destacou que existem apenas
cinco poliedros regulares (faces iguais): tetraedro (pirâmide triangular)
(quatro faces), hexaedro (cubo) (seis faces), octaedro (oito faces), icosaedro (dez faces) e dodecaedro (doze
faces).
Ainda na Grécia Antiga, uma outra ordem universal foi desenvolvida
pelo filósofo grego Platão de Atenas (c.428-c.347) e seus seguidores, isto é, a
ordem
geométrica ou platônica,
pois acreditavam que os quatro elementos fundamentais do Universo, ou seja, água,
ar,
fogo
e terra,
se relacionavam com os poliedros regulares pitagóricos,
da seguinte maneira: água-icosaedro, ar-octaedro,
terra-hexaedro e fogo-tetraedro. O dodecaedro
simbolizava o Universo como um todo, concluíam os platônicos.
A crença de que a ordem
universal era a geométrica foi
fortalecida quando os platônicos observaram que o irracional
poderia ser construído
geometricamente por intermédio de régua e compasso. Para isso, bastaria
desenhar um triângulo retângulo de catetos unitários e sua hipotenusa (de valor
pelo Teorema de Pitágoras) poderia ser
retirada pelo compasso. Não obstante esse grande feito, os platônicos se
defrontaram com uma enorme dificuldade, qual seja, a de construir
geometricamente, com régua e compasso, o número
(~ 3,1416),
que representa a relação entre o comprimento (
) e o diâmetro (
) de uma circunferência (relação essa já conhecida pelos
babilônicos e egípcios, pois seu valor, que consideravam como 3, era importante
para calcular o volume do cilindro e do cone), construída com um compasso. [W.
T. Sedgwick, H. W. Tyler e R. P. Bigelow,
História da Ciência: Desde a Remota
Antiguidade até o Alvorecer do Século XX (Editora Globo, 1950)].
A geometrização do número
era fundamental para
resolver o famoso problema da quadratura do círculo, isto é,
construir geometricamente, com régua e compasso, um quadrado de área
equivalente a de um círculo de raio unitário. Esse problema, nesse caso
especial, era equivalente ao da construção geométrica do
, uma vez que a área do círculo unitário vale
(lembrar que a área do
círculo de raio r, vale:
). Essa questão, associada a mais duas igualmente famosas: trissecção
do ângulo (a divisão de um ângulo qualquer em três partes) e
duplicação do cubo (dobrar o volume de um cubo), cujas soluções
geométricas não foram obtidas na Grécia Antiga, quebraram
a ordem geométrica platônica. O
problema da duplicação do cubo tem uma história que é interessante narrar.
Conta a lenda que, em 429 a.C., o estadista grego
Péricles, nascido em Atenas, por volta de 495 a.C., morreu de peste juntamente com um
quarto da população de sua cidade natal. Consternados por essa enorme perda, os
atenienses consultaram o oráculo de Apolo em Delfos sobre como combater a
peste. A resposta dada pelo o oráculo foi a de que o altar de Apolo, que tinha
a forma de um cubo, fosse duplicado. Imediatamente foi construído um novo cubo
com o dobro da aresta (a) do cubo anterior; porém a peste não acabou.
Certamente o oráculo não cumpriu sua palavra, pois os atenienses haviam
multiplicado por oito o volume do altar primitivo. O erro dos atenienses decorreu
do fato de que eles não sabiam obter, com régua e compasso, a raiz cúbica do
número dois (
). Com efeito, para cumprir a determinação do oráculo, os
atenienses deveriam calcular a nova aresta A a partir da expressão (lembrar que o volume de um
cubo vale A3):
. Para resolver o problema em questão, os atenienses fizeram
o seguinte:
. [J. D. Struik (Editor), A Source Book in Mathematics, 1200-1800 (Harvard
University Press, 1969); Morris Kline, Mathematical
Thought from Ancient to Modern Times (Oxford University Press, 1972)].
Certamente, a dificuldade em tratar os
problemas vistos acima (relacionados com o
) geometricamente é que levou o grande matemático grego
Euclides de Alexandria (323-285) a não considerá-los em seu famoso tratado Elementos de Geometria, composto de 13
livros. Neste tratado, ele apresenta os resultados geométricos sobre áreas e
volumes, assim como apresenta a geometria
de maneira axiomática. Logo no Livro 1, Euclides
apresenta 23 definições seguidas de cinco (5) postulados, enunciados a seguir
[Euclides, Great Books of the Western World 10 (Encyclopaedia Britannica, Inc.,
Chicago, 1993)]:
- É possível construir uma reta
ligando dois pontos quaisquer;
- Um segmento retilíneo pertence a
uma reta;
- É possível construir um círculo
com qualquer centro e com qualquer raio;
- Todos os ângulos retos são
iguais.
- Se uma linha reta corta duas
outras linhas retas, produzindo ângulos internos do mesmo lado menores do
que dois ângulos retos, as duas linhas retas, se prolongadas ao infinito,
vão se encontrar.
Note que, em linguagem
atual, esse quinto postulado de Euclides
(ou postulado
das paralelas) é assim enunciado [Carlos Tomei, Euclides: A Conquista do Espaço (Odysseus Editora, 2003)]:
Por
um ponto P fora de uma reta r, é possível traçar uma reta que nunca toca r.
É interessante registrar que as
definições, postulados e consequentes proposições
demonstradas por Euclides em seu livro Elementos
de Geometria, constituem a hoje conhecida Geometria Euclidiana.
Um outro
matemático grego que contribuiu para o desenvolvimento da geometria na Grécia Antiga foi Arquimedes de Siracusa
(c.287-212) com seus livros: Medida do
Círculo, Quadratura da Parábola, Das Espirais, A Esfera e o Cilindro e Dos Conóides e Esferóides. Nesses livros, Arquimedes
demonstrou resultados importantes (Sedgwick, Tyler e Bigelow, op. cit):
1)
Todo círculo é equivalente a um
triângulo retângulo em que os catetos são iguais, respectivamente, ao raio (r)
e à circunferência do círculo (2
r);
2)
O círculo está para o quadrado do seu
diâmetro aproximadamente na razão 11/14;
3)
A superfície da esfera (S) é igual a quatro vezes a área de seu círculo máximo (notação atual:
S = 4
r2);
4)
O cilindro que tem por base um círculo
máximo de uma esfera, e por altura o diâmetro da mesma esfera, é igual ao dobro
desta, tanto em volume como em superfície.
Além disso, Arquimedes
conseguiu, por intermédio de triângulos cada vez menores, num processo
conhecido como de exaustão (hoje, o cálculo integral), calcular a área de um
segmento de parábola, assim como a área (S) da elipse, de semi-eixos maior (a)
e menor b, hoje dada por S =
a b. Por fim, ele também estudou as espirais, sendo a mais
famosa delas, a espiral de Arquimedes, traduzida hoje pela seguinte equação: r
= a
, sendo a constante e r e
são as coordenadas
polares. Em seu livro Dos Conóides e Esferóides, Arquimedes estudou, por meio de
secções planas transversais, os sólidos de revolução das curvas cônicas
(elipse, parábola e hipérbole), calculando seus volumes comparando com os
volumes de cilindros inscritos e circunscritos, usando também o método
da exaustão. Aliás, é
oportuno registrar que quando o Cônsul e general romano Marcus Claudius Marcelus (c.268-208)
sitiava Siracusa, por ocasião da Segunda Guerra Púnica (218-201), entre Roma e Cartago, deu ordem
para um soldado trazer vivo Arquimedes (que infernizara o exército desse
general lançando pedras e óleos ferventes por catapultas e queimando seus
navios com espelhos ardentes). Quando o soldado aproximou-se de Arquimedes, que
estava tranquilamente desenhando figuras geométricas na areia, ouviu de
Arquimedes, o seguinte: - Noli tangere circulos meos (“Não toque em meus desenhos”). O soldado,
considerando que sua autoridade havia sido desrespeitada, transpassou-lhe o
gládio, matando-o.
Registre-se que as curvas
cônicas (elipse, parábola e hipérbole), bem como a ciclóide (curva descrita por
um ponto de um círculo rolando em um plano), epiciclóide
(curva descrita por um ponto de um círculo rolando na parte externa de um
círculo) e hipociclóide (curva descrita por um ponto
de um círculo rolando na parte interna de um círculo) foram estudadas pelo
matemático grego Apolônio de Perga (Pérgamo) (c.261-190).