A Invenção da
Trigonometria. As
primeiras ideias sobre uma “geometria social ou
prática” são bem antigas, surgiram da necessidade dos povos antigos em lidar
com números e relacioná-los aos problemas que tivessem alguma utilidade. Um dos
mais antigos exemplos desse utilitarismo foi a
preparação de uma Tabela (Plimpton 322),
feita pelos babilônios, no período 1900- Foi somente na Grécia Antiga
que se iniciou um estudo sistemático da relação entre ângulos (arcos) em um
círculo e o comprimento das cordas que os subentendia. Esse estudo, por
exemplo, permitiu que o astrônomo grego Aristarco de Samos
(c.320-c.250) calculasse os tamanhos do Sol, Terra e
Lua e suas respectivas distâncias, registrado em seu livro Sobre os Tamanhos e as Distâncias do Sol e da Lua, publicado por
volta de O trabalho incansável do
astrônomo grego Hiparco de Nicéia (c.190-c.120) sobre os eclipses solares e lunares, levou-o a
construir uma tabela de cordas (ligando dois pontos localizados em um círculo
cujo raio tomou como sendo unitário). Com auxílio dessa tabela e a divisão do
circulo de 3600 [proposto pelo astrônomo grego Hypsicles
de Alexandria (c.150 a.C.)] - com as subdivisões do diâmetro em 120 partes, com
cada uma dessas partes dividida em 60 partes [hoje, minuto (’)] e estas,
também, divididas em 60 partes [hoje, segundo (“)], conforme haviam considerado
os babilônios dos últimos séculos a.C. -, Hiparco
encontrou os seguintes valores, em função do raio terrestre (RT):
distância Terra-Sol ~ 2500 RT; distância Terra-Lua
~ 60 RT; raio do Sol ~ 12 RT e raio da Lua ~ 0,29 RT.
Em virtude desse trabalho de Hiparco ele é
considerado como o “pai” da trigonometria.
Esse trabalho
“trigonométrico” de Hiparco foi completado pelo
astrônomo grego Menelaus de Alexandria (f.c.100 d.C.), em seu livro Cordas Na Idade Média, uma das primeiras
contribuições para o desenvolvimento da trigonometria
deve-se ao astrônomo hindu Aryabhata I (476-c.550) ao adotar um raio de ~ 3439 unidades [ Depois dos hindus, foram os
árabes que deram novas contribuições ao estudo das funções trigonométricas. Com efeito, o astrônomo árabe Abu-´Abdullah Muhammad ibn Jabir al-Battani
(Albatênio) (c.858-929) melhorou as tabelas
astronômicas de Ptolomeu, substituindo os métodos geométricos dos gregos por trigonométricos,
utilizando para isso (e de modo pioneiro) uma tabela de senos,
apresentada por ele em seu livro Kitab al-Zig (“Livro das Tabelas Astronômicas”). Já o
astrônomo persa Abu al-Wafa´
(al-Buzajani) (940-948), que trabalhava no Observatório de Bagdá, elaborou novas
tabelas astronômicas, utilizando a função tangente
e sua inversa, a cotangente, já de
uso regular pelos astrônomos árabes [por exemplo, o também médico e filósofo Thabit (Tâbit) ibn-Qo(u)rra (826/836-901) e Albatênio], bem como inventou as funções secante e cossecante para representar, respectivamente, o inverso do cosseno e do seno; ele também preparou uma tabela de senos e tangentes para cada dez minutos ( Em um triângulo plano
com ângulos A, B, C e
os respectivos lados opostos a, b, c, tem-se: a/sen A = b/sen B = c/ sen C. A sistematização da trigonometria plana e esférica foi realizada pelo astrônomo
árabe Nasir ed-din
at Tusi (Nâsir Eddin) (1201-1274) no livro
intitulado Treatise on the Quadrilateral (“Tratado sobre o Quadrilátero”).
Neste livro, ele deduziu as fórmulas fundamentais para resolver triângulos mais
gerais, particularmente de triângulos esféricos retos, aqueles cujos três
ângulos internos são perpendiculares. Note que esse livro só foi conhecido na
Europa, em 1450, quando então foi traduzido. É interessante ressaltar que o
matemático italiano Leonardo de Pisa (Fibonacci)
(1170-1230), em seu livro Pratica Geometriae (“Geometria Prática”), publicado em 1220,
divulgou a tabela de senos usada pelos gregos e romanos, por intermédio de
algarismos arábicos. Antes de prosseguir, creio
ser oportuno registrar como surgiu a palavra seno. Os astrônomos hindus, conforme vimos acima,
trabalhavam com a semicorda dos arcos, cuja
expressão em hindu (jiva)
foi traduzida pelos árabes como jiba. Contudo, existe em árabe a palavra jaib, que significa “golfo” ou
“enseada”. Portanto, quando o linguista inglês Robert
of Chester (f.c.1150), já em 1145, traduziu os textos árabes, confundiu
jiba com jaib, e deu-lhe,
desse modo, o correspondente nome latino: sinus (seno). [Paul Karlson, A Magia dos
Números (Editora Globo, 1961); Boyer, op. cit.]. Novas contribuições à trigonometria foram dadas por
astrônomos europeus. Com efeito, o austríaco George von Puerbach (1423-1461)
corrigiu as famosas tabelas alfonsinas [mandadas preparar
pelo Rei espanhol Alfonso X de Castela e Leão (1221-1284), em 1252, para
descrever o movimento dos astros] usando uma tabela de senos
naturais, ao invés de cordas, senos
esses calculados com a diferença de dez minutos ( sen a/sen A = sen b/sen B = sen c/sen
C. Ele também deduziu a lei
dos cossenos para triângulos planos e esféricos, respectivamente: cos A = (c2 + b2 –
a2)/(2bc); cos a = cos b cos
c + sen b sen c cos A. Observe
que nos triângulos esféricos, os lados (a, b, c) são arcos de círculo e,
portanto, são dados também em unidades de ângulo [grau (0), minuto (‘) e
segundo (“)]. É oportuno destacar que Regiomontano, para construir sua tabela de senos, usou
raios em unidades de 6 Uma mudança conceitual do seno foi proposta pelo matemático e
astrônomo austríaco Georg Joachim von
Lauchen (Rhaeticus/Rético)
(1514-1576), ao considerar que para um arco OAD, o segmento AB (perpendicular
baixada de A ao raio OD) representa o seno
do ângulo AÔB do triângulo OAB. Contudo, ele ainda, como os gregos, hindus e
árabes, preparou uma tabela de senos baseada em raios de
várias unidades: 1010 e 1015, e para cada dez segundos ( Por sua vez, o advogado e
matemático francês François Viète (1540-1603) em seu livro Canon Mathematics (“A Medida da Matemática”), publicado em
1579, demonstrou a lei das tangentes: (a - b)/(a +
b) = [tg (1/2)(A – B)]/tg
[(1/2)(A + B)]. Além
disso, ainda nesse livro, ele apresentou várias identidades conhecidas desde
Ptolomeu (p.e.: sen2 A + cos2 B
= 1), deduziu outras, dentre elas: sen A – sen B = 2 cos [(A + B)/2] sen [(A - B)/2]. Também
é de Viète, a dedução de identidades para sen ( Note que o nome trigonometria foi cunhado por Bartholomeus Pitiscus
(1561-1613), em 1595, em um pequeno artigo que tratava de triângulos esféricos.
Ele repetiu esse termo em trabalhos publicados em 1600, 1606 e, finalmente, em
1613, no livro denominado Thesaurus (“Tesouro”),
no qual corrigiu e publicou uma segunda tabela de Rético. Por fim, o físico e
matemático suíço Leonhard Euler
(1707-1783) no tratado chamado Introductio in Analysin Infinitorum (“Introdução
à Análise do Infinito”), de 1748, introduziu os senos e tangentes sem
dimensões, ou seja, ele considerou o raio da circunferência como unitário. [D.
J. Struik (Editor), A Source Book in Mathematics, 1200-1800 (Harvard University Press,
1969)]. É importante
notar que Euler, em trabalhos realizados em 1734-1735
e publicados em 1740, reobteve a fórmula deduzida
pelo matemático francês Abraham de Moivre
(1667-1754), em 1707, qual seja: (cos x + Mais tarde, Euler
publicou os livros Institutiones Calculi Differentialis (“Livros sobre o Cálculo Diferencial”),
publicada em Berlim, em 1755, e Institutiones Calculi Integralis (“Livros
sobre o Cálculo Integral”), obra em três volumes, publicada exp ( onde i = ex = Registre-se que a notação i
= ex = (1 + x/i)i , que significava (na notação de hoje): ex =
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