SEARA DA CIÊNCIA
CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Bassalo


As idiossincrasias de Pauli. .
O físico austro-suíço Wolfgang Pauli Junior (1900-1958; PNF, 1945) assistia aos Seminários, Colóquios e Conferências de Física sempre sentado na primeira fila. Quando não concordava com o que estava sendo exposto, levantava-se e dizia: Isso está errado, é falso, não tem sentido é uma imbecilidade - vá para casa. Certa vez, o físico austríaco Victor Frederick Weisskopf (1908-2003) tinha que apresentar um seminário e ficou receoso da presença de Pauli ao mesmo. Conversou antes com seu amigo, o físico germano-inglês Rudolf Ernest Peierls (1907-1995), e este lhe disse que não se preocupasse, pois, bastaria que fosse antes a Pauli, expusesses as idéias que iria defender, Pauli diria todas aquelas palavras, porém, por ocasião de seu seminário, Pauli, sentado na primeira fila, apenas murmuraria para si: Bem, eu já lhe disse o que deveria dizer. E assim aconteceu quando Weisskopf apresentou o seminário. De outra feita, o físico ítalo-norte-americano Emílio Gino Segrè (1905-1989; PNF, 1959) apresentou, em uma Conferência Internacional, um trabalho sobre o espalhamento próton-próton para uma platéia em que estava presente Pauli, como de costume, na primeira fila. Na saída, Pauli vira-se para Segrè e um outro físico que os acompanhava e disse: Nunca ouvi uma exposição tão ruim como a sua. Depois de pensar por algum momento, Pauli virou-se para o companheiro de Segrè e disse-lhe: Exceto quando ouvi sua aula inaugural em Zurique. Apesar dessa atitude altamente negativista, quando Pauli se convencia da validade da idéia que alguém estava apresentando para ele, então passava a auxiliar o interlocutor e ainda oferecia novas idéias. Essa postura de Pauli de ser "sempre do contra", foi destacada quando, em 1932, alguns físicos reunidos em torno do físico dinamarquês Niels Henrik David Bohr (1885-1962; PNF, 1922), em Copenhague, decidiram produzir uma peça satírica adaptando o Fausto (Parte I, 1808; Parte II, 1832) do poeta, dramaturgo e filósofo alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) às condições da Física Teórica de então. Eles escolheram Pauli para o papel de Mefistófeles, der Geist der stets verneint ("O espírito que sempre nega"). Para essas e outras idiossincrasias de Pauli, ver o livro de Segrè intitulado Dos Raios-X aos Quarks: Físicos Modernos e suas Descobertas (Editora Universidade de Brasília,1987). Note-se que Pauli permaneceu com atitudes inusitadas até o final de sua vida. Conforme contam os físicos norte-americanos John Archibald Wheeler (n.1911) e Kenneth William Ford (n.1926) no livro intitulado Geons, Black Holes & Quantum Foam: A Life in Physics (W. W. Norton & Company, 1998), poucos dias antes de morrer, em 15 de dezembro de 1958, Pauli foi internado em um hospital em Viena, no quarto de número 136. Contudo, ele pediu para ser transferido para o 137, pois este número era (e ainda é) famoso em Física. Ele representa o inverso do valor aproximado da constante de estrutura fina a ~ 1/137. Ele foi transferido para o 137, mas morreu dias depois. É ainda oportuno destacar que Pauli tornou-se famoso desde quando tinha vinte e um (21) anos de idade, em virtude de haver escrito um artigo sobre a Teoria da Relatividade Einsteiniana para a Encyklopädie der mathematischen Wissenschaften ("Enciclopédia da Matemática"), volume 19, que causou grande impressão ao próprio autor dessa Teoria. Destaque-se, também, que Pauli recusou-se a trabalhar no Projeto Manhattan, projeto responsável pelo desenvolvimento da primeira Bomba Atômica.