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CURIOSIDADES DA FÍSICA José Maria Bassalo |
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Maxwell e Gamow como Poetas. Em
alguns verbetes desta série, falamos sobre algumas das contribuições
científicas do físico e matemático escocês James Clerk Maxwell (1831-1879) e do
físico russo-norte americano George Antonovich Gamow (1904-1968). Neste verbete,
vamos destacar alguns aspectos de seus dotes poéticos. Segundo nos conta o
físico brasileiro Frederico Firmo de Souza Cruz (n.1953) em seu livro
intitulado Faraday & Maxwell: Luz
sobre os Campos (Odysseus, 2005), durante a sua vida Maxwell escreveu
muitos poemas e versos. Alguns desses poemas, apresentavam
a característica de poesia de cordel, como se pode ver no poema de amor anotado
por Cruz em seu livro e intitulado: CARTA DE AMOR DE UM TELEGRAFISTA (CLERK) PARA UMA
TELEGRAFISTA (VALENTINE) Os fios de minha alma / Com os teus entrelaçados estão, / Embora milhas
distantes, / E se enrolam bem juntos,brilhando em
circuitos / Em volta do ímã de meu coração. / Constante como Daniell, forte
como Grove, / Efervescente em sua profundidade como Smee, / Meu coração
impulsiona avante a maré de amor, / E todos os circuitos se fecham em ti. / Oh,
diga-me, quando ao longo da linha, / De meu coração as mensagens fluem, / Que
correntes em ti induzem? / Se de ti apenas um clique chegar / Minha profunda
tristeza irá findar. É oportuno destacar que em
seu famoso livro intitulado A Treatise
on Electricity & Magnetism, publicado em 1873 (reeditado pela Dover, em
1954), Maxwell descreve as baterias construídas pelos físicos referidos em seu
poema. Por exemplo, Daniell se refere ao químico inglês John Frederic Daniell
(1790-1845) que, em 1836, ficou conhecido por aumentar a vida média das pilhas
voltaicas (baterias), separando com uma membrana, os seus elementos de cobre (Cu) e zinco (Zn). Registre-se que a invenção da pilha voltaica foi comunicada, à Royal Society of London, pelo físico
italiano Alessandro Giuseppe Volta (1745-1827), em março de 1800. Por sua vez,
o físico inglês Sir William Robert Grove (1811-1896) inventou, em 1839, uma
pilha voltaica na qual a placa negativa é imersa em um fluido rico em oxigênio
(O) e hidrogênio (H). Por fim, Smee relaciona-se com a pilha inventada pelo
físico inglês A. Smee, na qual as placas negativas são verticais, e cobertas com platina
(Pt) finamente dividida para permitir que as bolhas de H possam escapar
facilmente. O lado poético de Gamow é
destacado pelo físico indiano-inglês Simon Singh (n.1964) no livro intitulado Big Bang (Record,
2006), no qual ele transcreve o poema escrito por aquele astrofísico sobre a
origem do Universo, cujo mote fundamental é a formação dos elementos químicos,
formação essa conhecida como nucleossíntese. Nesse livro (e também em um
verbete desta série), o leitor encontrará uma boa discussão sobre a dificuldade
(como, por exemplo, a produção do elemento de massa cinco) do modelo da nucleossíntese formulado por Gamow e seus colaboradores,
e a solução dessa dificuldade encontrada pelo astrofísico inglês Sir Fred Hoyle
(1915-2001). Eis o poema: O GÊNESE SEGUNDO GEORGE GAMOW No princípio DEUS criou a radiação e o ylem. E o ylem era sem forma ou
número, e os núcleons corriam loucamente sobre a face do abismo. / E DEUS
disse: “Que haja a massa dois”. E
houve a massa dois. E DEUS viu o deutério, e o deutério era bom. / E DEUS
disse: “Que haja massa três”. E a massa três se fez. E DEUS viu o trítio, e o
trítio era bom. / E DEUS continuou chamando os números até chegar aos elementos
transurânicos. E então, quando fitou a sua obra, DEUS viu que não era boa. No
entusiasmo da contagem, ele deixara de citar a massa cinco, e assim,
naturalmente, nenhum elemento mais pesado poderia se formar. / DEUS estava
muito desapontado e queria contrair o Universo novamente e começar tudo de novo.
Mas isso seria simples demais. Assim, sendo todo-poderoso, DEUS decidiu
corrigir o seu engano da forma mais impossível. / E DEUS disse: “Que haja
Hoyle”. E houve Hoyle. E DEUS olhou para Hoyle e lhe disse para produzir
elementos pesados do jeito que ele quisesse. / E Hoyle decidiu fabricar
elementos pesados nas estrelas, e espalhá-los através das explosões das
supernovas. Mas, assim, fazendo, ele tinha que obter as mesmas abundâncias que
teriam resultado da nucleossíntese do ylem, se DEUS não tivesse esquecido de
chamar a massa cinco. / E assim, com a
ajuda de DEUS, Hoyle fez os elementos pesados deste modo, mas era tão
complicado que, hoje em dia, nem Hoyle, nem DEUS nem ninguém mais pode
determinar exatamente como foi feito. Além desse poema de Gamow, existem outros
que ele escreveu como o personagem C. G. H. Tompkins de seus famosos livros de
divulgação científica intitulados: Mr.
Tompkins in Wonderland (“Sr. Tompkins no País das Maravilhas” ) e Mr. Tompkins
Explores the Atom (“Sr. Tompkins Explora o Átomo”), ambos publicados pela Cambridge University Press (CUP),
respectivamente, em 1939 e 1940. Registre-se que esses livros foram traduzidos
em todas as línguas européias (exceto a russa), bem como em chinês e indi.
Segundo Gamow, o herói de suas histórias é um funcionário bancário interessado O Átomo primordial! / Átomo que contém
tudo! / Dissolvido em fragmentos que se vêem mal! / / Formando nebulosas, /
Cada qual com energia primária! / Ó Átomo radioativo! / Ó Átomo que tudo
contém! / Ó Átomo universal / Obra do Senhor! / / A longa evolução / Conta
terríveis explosões / Que acabam em cinza e farrapos fumegantes. / Ficamos com
as escórias / Em confronto com sóis evanescentes / Procurando lembrar / O
esplendor de nossa origem. / Ó Átomo universal!
/ Obra do Senhor! Bom Abade, nossa compreensão / É a
mesma de inúmeras maneiras: / Tem-se expandido o Universo / Desde o berço dos
primeiros dias! / / Disseste que ganha movimento: / Lastimo discordar. / E
divergimos na noção / De como tal se pode dar. / E divergimos na noção / De
como tal se pode dar. / / Era fluido neutro – nunca / Átomo primário, como diz.
/ É infinito como sempre / Era infinito antes. / / Num pavilhão sem limites / Em colapso,
o gás encontrou a própria sina, / Há muitos anos (alguns milhares de milhões) /
Passado a estado mais denso. / Há muitos anos (alguns milhares de milhões) /
Passado a estado mais denso. / / O espaço inteiro resplendia então / Nesse, do
tempo, ponto crucial. / À matéria transcendia a luz / Como o metro em relação à
rima. / À matéria transcendia a luz / Como o metro em relação à rima. / / Para
cada tonelada de radiação / Havia então uma onça de matéria, / Até o impulso
para a inflação / Nesse grande salto primevo. / Até o impulso para a inflação /
Nesse grande salto primevo. / / Era então a luz bem pálida
... / Passam centenas de milhões de anos / A matéria, sobre a luz
prevalecendo, / Por toda parte encontra-se abundante. / A matéria, sobre a luz
prevalecendo, / Por toda parte encontra-se abundante. / / Começou a matéria a
condensar-se / (Tal a hipótese de Jeans) / Produzindo nuvens gasosas
gigantescas / Como protogaláxias conhecidas. / Produzindo nuvens gigantescas /
Como protogaláxias conhecidas. / / Estas foram depois despedaçadas / Través da
noite para além voando. / Delas formaram-se estrelas dispersas / E de luz
encheu-se o espaço. / Delas formaram-se estrelas dispersas / E de luz encheu-se
o espaço. / / As galáxias giram constantemente, / As
estrelas queimarão soltando chispas, / Té que o universo se adelgace / Para
ficar sem vida, frio e negro. / Té que o universo se adelgace, / Para ficar sem
vida, frio e negro. O universo, por decreto celeste, / Não
se formou nunca em tempo antigo, / Mas foi, é e será o mesmo sempre, / Pois
assim Gold e Bondi estão comigo. / Pára, ó Cosmos, ó Cosmos fica o mesmo! /
Proclamamos o estado de firmeza. / / As nebulosas idosas se dispersam / E
ardem, abandonando a cena. / Mas entrementes o universo inteiro / Foi, é e será
o mesmo sempre. / Pára, ó Cosmos, ó Cosmos fica o mesmo! / Proclamamos o estado
de firmeza! / / E ainda novas galáxias se condensam / Do nada, como anteriormente./ (Lemaître e Gamow não se ofendam!) / Tudo o
que foi, é e será para sempre / Proclamamos o estado de firmeza! Os anos que passou lutando, / Disse Ryle a Hoyle, / Foram anos perdidos, acredito. / O
estado firme / Está ultrapassado / Se os olhos não me enganam. / / Meu
telescópio / Fez desmoronar (sic!) as suas esperanças: // Desmentiram-lhe as
afirmações. / Permita-me a concisão: / Dia a dia o universo / Se dilui cada vez
mais! / / Disse Hoyle: “Está citando / Lemaître, ao que parece, / E Gamow. Bem,
esqueça-os! / Esse bando irritante / E a tal Bing (sic!) Bang / Por que
ajudá-los ou favorecê-los? / / Veja bem, amigo, / Não tem fim nem teve /
Princípio. / Conforme Bondi e Gold, / Que estão comigo, Até ficarmos calvos!” /
/ “Não é assim!” exclamou Ryle, / Enquanto a bílis fervia / E forçava o
cabresto; / Porquanto as galáxias estão. / Como qualquer um vê / Muito mais
perto umas das outras!” / / “Você me faz ferver de
cólera! / Explodiu Hoyle. / Dando outra forma à afirmação: / Nova matéria nasce
/ Cada noite ou manhã. / O quadro não muda! / / Desiste, Hoyle! / Ainda hei-de
destroçar-te! / (Começa a brincadeira) / E dentro de muito pouco tempo, /
Continuou Ryle, / Hei-de chamar-te à razão!” Ainda no citado livro do
Singh, há a transcrição do seguinte poema: Recebi o prêmio Nobel por um méson, /
Feito cujo valor prefiro diminuir. / Lambda zero,
Yokohama, / Eta keon, Fujiyama / Recebi o prêmio Nobel por um méson. /
Propuseram no Japão chamá-lo de Yukon. / Hesitei, porque sou muito modesto. /
Lambda zero, Yokohama / Eta keon, Fujiyama / Propuseram no Japão chamá-lo de
Yukon. Com relação a esse poema, é
oportuno esclarecer que, em 1935, o físico japonês Hideki Yukawa (1907-1981;
PNF, 1949) propôs que a força nuclear (mais
tarde conhecida como força forte)
entre os núcleons (prótons e nêutrons) decorria da troca, entre eles, da partícula U, como a denominou Yukawa. De início, ela ficou
conhecida como Yukon, logo depois
foi chamada de “mesotron”, em seguida, de “méson pi”, e hoje se chama píon. A detecção dessa partícula
aconteceu em 1947, pelos físicos, o inglês Sir Cecil Frank Powell (1903-1969;
PNF, 1950), o italiano Guiseppe Paolo Stanislao Occhialini (1907-1993) e o
brasileiro Cesare (César) Mansuetto Giulio Lattes (1924-2005) (ver verbetes
nesta série sobre as partículas citadas no poema). Por fim, queremos também
registrar que Gamow apresentou poemas (de sua autoria e de autores anônimos) em
outros livros de divulgação científica que publicou, dentre os quais,
destacamos: Nascimento e Morte do Sol (1941/Globo,
1961), Biografia da Terra (1943/Globo,
1961), Um, Dois, Três
... Infinito (1947/Zahar, 1962) e Biografia da Física (1961/Zahar, 1963). É ainda oportuno registrar
que Gamow ilustrou todos os livros de divulgação que escreveu, com exceção do
primeiro - Mr. Tompkins in Wonderland -,
ilustrado pelo Sr. John Hookham, que inclusive criou as feições do Sr.
Tompkins. Em virtude dessa atividade de divulgador científico, a UNESCO lhe outorgou, em 1956, o Prêmio Kalinga de Divulgação Científica. |