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CURIOSIDADES DA FÍSICA José Maria Bassalo |
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Os Modelos Cosmológicos Contemporâneos e o Big Bang. Neste verbete,
trataremos apenas dos modelos cosmológicos formulados no Século 20. Os modelos
planetários que foram desenvolvidos desde os gregos antigos até o final do
Século 19, poderão ser encontrados em vários textos, dentre os quais
destacamos: Carl Sagan, Cosmos
(Francisco Alves, 1982); Fátima Regina Rodrigues
Évora, A Revolução Copernicana-Galileana I, II (EDUNICAMP,
1988); Arthur Koestler, O Homem e o Universo (Ibrasa, 1989); Roberto de Andrade Martins, Universo: Teorias sobre a sua
Evolução (Editora Moderna, 1994); José Maria Filardo Bassalo, Crônicas da Física, Tomo 4 (EDUFPA, 1994); Marcelo Gleiser, A Dança do Universo: Dos Mitos de Criação ao Big-Bang
(Companhia das Letras, 1997); Alexandre Cherman, Cosmo-o-quê? Uma Introdução à Cosmologia (Fundação Planetário do Rio de Janeiro, 2000); Ronaldo
Rogério de Freitas Mourão, Kepler: A Descoberta das Leis do Movimento Planetário e Copérnico:
Pioneiro da Revolução Astronômica (Odysseus, 2003; 2004); e Stephen
William Hawking, Os Gênios da Ciência: Sobre os Ombros de Gigantes (Editora Campus, 2005). Em 1915 (Sitzungsberichte
Preussische Akademie der Wissenchaften 2, p. 844), o físico germano-suíço-norte-americano Albert Einstein (1879-1955;
PNF, 1921) formulou a Teoria da Relatividade Geral (TRG) traduzida pela equação de Einstein: Em 1917 (Sitzungsberichte
Preussische Akademie der Wissenchaften 1, p. 142), Einstein
encontrou uma solução para a sua equação que, no entanto, diferentemente da
solução encontrada por Schwarszchild, era dinâmica.
Contudo, por essa época, não havia nenhuma evidência experimental sobre a
dinâmica do Universo, isto é, se o seu raio dependia do tempo. Então, para
contornar essa dificuldade, ele formulou a hipótese de que as forças entre as
galáxias eram independentes de suas massas e que variavam na razão direta da
distância entre elas, isto é, havia uma “repulsão cósmica”, além, é claro, da
“atração gravitacional Newtoniana”. Matematicamente, essa hipótese significava
acrescentar um termo ao primeiro membro de sua equação – o famoso termo cosmológico ou termo de
repulsão cósmica ( Ainda em 1917 (Monthly Notices of the Royal Astronomical
Society 78, p. 3), o astrônomo holandês Willem de Sitter (1872-1934)
encontrou uma outra solução estática da equação Einsteniana
com o termo cosmológico A primeira solução
não-estática da equação
de Einstein foi obtida pelo matemático russo Aleksandr Friedmann (1888-1925)
ao perceber que a consideração do termo cosmológico (caracterizado por A possibilidade teórica de
um Universo em expansão prevista por Friedmann, começou a se tornar realidade devido aos
trabalhos realizados pelo astrônomo norte-americano Edwin
Powell Hubble (1889-1953).
Com efeito, em dezembro de 1924, trabalhando com o novo telescópio Hooker do Observatório
de Monte Wilson, Hubble estava examinando uma
fotografia da nebulosa (galáxia) de
Andrômeda (M31) [M, do catálogo preparado pelo astrônomo francês Charles Messier (1730-1817), em 1771]. Nesse exame, encontrou uma
estrela do mesmo tipo existente em nossa nebulosa (galáxia), a Via Láctea. Continuando a estudar as
nebulosas fora de nossa Galáxia, chegou a seguinte conclusão: As galáxias são distribuídas no espaço de
modo homogêneo e isotrópico. Assim, pela primeira vez, a uniformidade do
Universo não era colocada a priori, ela provinha de uma observação. Essas observações de Hubble foram publicadas em 1925 (Astrophysical Journal 62, p. 409) e em 1926 (Astrophysical Journal 63; 64, pgs. 236; 321). Na continuação de suas
observações, Hubble fez, em 1929 (Proceedings of the National Academy of Sciences 15, p.
169), outra grande descoberta. Com efeito, ao observar cerca
de 18 galáxias próximas de nossa Galáxia, percebeu que havia no espectro
das mesmas um deslocamento para o vermelho (red shift). Interpretado esse deslocamento
como devido ao efeito Doppler-Fizeau (vide verbete
nesta série), o mesmo significava uma fuga das galáxias, em relação ao
observador. Ao calcular a distância entre as várias galáxias, concluiu que
(logo conhecida como Lei
de Hubble): As galáxias se afastam uma das outras com
uma velocidade (V) proporcional à
distância (D) que as separam. A
proporcionalidade (H0) entre V e H, traduzida pela expressão V = H0
D, foi estimada por Hubble, ainda nessa ocasião, no
valor de: Sobre as observações de Hubble, é oportuno registrar quatro aspectos. O primeiro,
refere-se ao fato de que as descobertas de Hubble colocaram um ponto final no Grande Debate que existia entre
os astrônomos sobre a natureza das nebulosas. Com efeito, o Observatório de Monte Wilson era
dominado por astrônomos que acreditavam que a Via Láctea era a única galáxia no Universo e que todas as nebulosas
ficavam dentro dela, segundo a opinião do astrônomo norte-americano Harlow Shapley (1885-1972),
Diretor do Observatório de Harvard.
Por sua vez, o astrônomo norte-americano Heber
Doust Curtis (1872-1942), que trabalhava no Observatório Lick,
na Califórnia, defendia a hipótese de que as nebulosas são galáxias fora da Via Láctea. As descobertas de Hubble, além mostrarem que Curtis tinha razão,
indicavam uma forte evidência experimental sobre o início do Universo. Em vista
disso, o Papa Pio XII [Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli
(1876-1958)], no discurso intitulado As Provas da Existência de DEUS à luz da Moderna Ciência
Natural, proferido na Academia
Pontífice de Ciências, em 22 de novembro de 1951, chegou a afirmar que Hubble havia provado que o Universo não era eterno, e sim
criado por DEUS. O segundo aspecto, salientado pelo físico português João Carlos Rosa Magueijo (n.1967) (Faster than the Speed of
Light, Perseus
Publishing, 2002), relaciona-se com o telescópio
usado por Hubble que era capaz de rodar em perfeita
oposição à rotação da Terra, permitindo apontá-lo na mesma direção por horas a
fio. Isto lhe permitiu desenvolver uma técnica revolucionária, qual seja, a de que, em vez de colocar um olho humano no foco de
seu telescópio, Hubble colocou um filme fotográfico.
Assim, longas exposições de filme fotográfico permitiram-lhe, com a ajuda de Humason, ver objetos muito mais tênues do que aquilo que
poderia ver com o seu olho. O terceiro aspecto, me foi alertado pelo físico
brasileiro André Koch Torres Assis (n.1962) que, em
comunicação via e-mail, me informou que Hubble
duvidou da recessão (expansão) das galáxias que havia descoberto pois, em textos posteriores passou a usar o termo
“velocidade aparente-deslocamento” (entre aspas), indicando que, talvez, não
houvesse uma velocidade real de afastamento das galáxias [Assis, A. K. T., Apeíron 12, p. 10 (1992)]. Por fim, o quarto aspecto
está ligado à frustração de Hubble em não haver
recebido o Prêmio Nobel de Física (PNF). Embora merecedor desse Prêmio pelas
grandes contribuições que deu à Astronomia, por essa ocasião, o Comitê Nobel de Física (CNF) não considerava os
astrônomos como físicos. Na esperança de que o CNF reconsiderasse essa posição, Hubble e
sua esposa Grace contrataram
os serviços de um agente publicitário que o fez aparecer na capa da revista Time, o que, no entanto, não foi
suficiente para convencer aquele Comitê.
Registre-se que o casal Hubble era amigo de muitos
artistas de Hollywood e, por conta dessa amizade, em 1937, Hubble
foi o convidado de honra do engenheiro e cineasta ítalo-norte-americano Frank Capra (1897-1991) na entrega do Oscar daquele ano. Como Hubble morreu no
dia 28 de setembro de 1953, ele não soube que o CNF havia mudado, em segredo,
suas regras para considerar os astrônomos como físicos e, por isso, iriam
atribuir o PNF de 1953 para Hubble. Essa
inconfidência foi informada a Grace Hubble por dois
membros daquele Comitê: o físico italiano, o Nobelista
(1938) Enrico Fermi (1901-1954) e o astrofísico indiano, o futuro Nobelista (1983) Subrahmanyan Chandrasekhar (1910-1995). É oportuno registrar que o PNF
de 1953 foi atribuído ao físico holandês Frits Zernike (1888-1966) pela invenção do microscópio de contraste de fase, e que os primeiros astrônomos a receber o PNF, em 1974, foram os
ingleses Martin Ryle (1918-1984), pela descoberta dos
quasars (1948) e Antony
Hewish (n.1924), pela descoberta dos pulsars (1967). Mais
detalhes sobre Hubble, ver: Singh,
op. cit., e Damineli, op. cit. Depois dessa digressão sobre
Hubble, voltemos aos modelos dos universos
expansivos. Um deles foi formulado por Lemaître, em
1927 (Annales de O modelo cosmológico
expansivo de Friedman-Lemaître, foi sintetizado por Robertson, em 1935 (Astrophysical Journal 82, p. 284) e 1936 (Astrophysical Journal 83, pgs. 187; 257) e, independentemente, pelo matemático inglês
Arthur Geoffrey Walker (1909-2001), também em 1936 (Proceedings of the London Mathematics
Society 42, p. 90), ao apresentarem a
famosa métrica de Robertson-Walker. Desse modo,
aquele modelo, dotado dessa métrica, indicava que o Universo havia começado
pela explosão do “ovo cósmico Lemaîtriano”. Em vista
disso, algumas questões foram então colocadas, principalmente a que se refere
ao instante dessa explosão, bem como, a partir daí, como se formaram as
galáxias do Universo, que ora contemplamos, com seus principais constituintes
que são as estrelas. É oportuno registrar que, em 1949, o matemático
austro-húngaro Kurt Gödel
(1906-1978) apresentou uma nova solução da equação de Einstein na qual o
Universo é infinito, sem tempo cósmico, estático (sem expansão) e giratório.
Nesse Universo de Gödel, um foguete pode viajar para qualquer região do passado, presente ou
futuro e voltar atrás ... . [ As questões discutidas até aqui sobre os modelos cosmológicos expansivos
foram analisadas por Gamow. Com efeito, partindo da
idéia da explosão inicial do Universo, apoiando-se na equação de Einstein e nas Leis da Termodinâmica, Gamow passou a
elaborar o seu modelo cosmológico. Assim, em 1946 (Physical Review 70, p. 572), considerou que nos primeiros momentos, o Universo era bastante
denso e muito quente, ocasionando rápidas reações termonucleares. Em 1948 (Physical Review 73, p. 803), em colaboração
com seu aluno, o físico norte-americano Ralph Asher Alpher (n.1921), Gamow apresentou
o seu famoso artigo no qual o “ovo cósmico Lemaîtriano”
formado de nêutrons, no instante do big bang [nome cunhado, pejorativamente, pelo astrofísico inglês Sir Fred Hoyle (1915-2001), no último programa de rádio de uma série
intitulada The Nature of Things que apresentou na British Broadcasting Corporation
(BBC), em 1950], se desintegrou em prótons e elétrons. Ao serem formados
esses prótons, alguns colidiram com nêutrons que ainda persistiam e,
gradualmente, iam formando núcleos mais pesados da Tabela Periódica, num
processo que ficou conhecido como nucleossíntese. É oportuno
destacar que esse artigo também ficou famoso pelo senso de humor de Gamow, uma vez que persuadiu o físico
germano-norte-americano Hans Albrecht Bethe
(1906-2005; PNF, 1967) para também assiná-lo, com o objetivo de formar as três
primeiras letras do alfabeto grego [alfa ( Nesse modelo Ainda em 1948 (Physical Review 74, p. 1198), Alpher e o físico norte-americano
Robert C. Herman (1922-1997), também colaborador de Gamow, encontraram para a RCFM um valor de aproximadamente 5 K. Por sua vez, em 1950 (Progress in Theoretical Physics
5, p. 224), o astrofísico japonês Chushiro Hayashi (n.1920) questionou o modelo A teoria da
nucleossíntese, elaborada por Gamow e
seus discípulos conforme vimos acima, apresentava uma grande dificuldade, qual
seja, a explicação de como o hélio (4He) se convertera nos outros
elementos químicos pesados nos momentos iniciais do big bang. Em seus trabalhos, eles mostraram que o acréscimo do núcleo do hidrogênio (1H)
ao núcleo do 4He (partícula Segundo o modelo BGH, na
medida em que as galáxias se deslocam afastando-se umas das outras, de acordo
com a lei de Hubble-Humason, novas
galáxias estão em constante formação nos espaços entre elas,
resultante de nova matéria que é continuamente criada. Portanto, grosso modo, o Universo pareceria o
mesmo em todos os tempos, bem como em todos os pontos do espaço, segundo o princípio cosmológico perfeito proposto pelo cosmólogo inglês Edward Arthur Milne (1896-1950), em 1935, e que fora retomado por Gold para usar no artigo que fez com Bondi.
No entanto, para que esse modelo cosmológico estacionário pudesse
explicar a criação contínua da matéria, seus autores tiveram que introduzir
modificações na Teoria da Relatividade Geral de Einstein (TGRE). Aliás, Milne já havia abandonado a TGRE ao criar, a partir de A dificuldade da nucleossíntese enfrentada pela teoria do big bang (e, também, pela BGH), foi resolvida por Hoyle.
Vejamos como. Em 1953 (Astrophysical Journal Supplement 1, p. 121), Hoyle demonstrou que estados excitados (ressonâncias) do Muito embora a BGH tivesse
sobrevivido a década de Utilizando uma antena de Muito embora a detecção da
radiação primordial tenha dado bastante crédito ao modelo (teoria) do big bang (BB), este começou a ser contestado nas décadas de 1960 e 1970, em
virtude de sua dificuldade em explicar quatro grandes problemas (“puzzles”). O primeiro deles, conhecido como problema do horizonte (“horizon puzzle”) [que já havia sido apontado pelo físico
austro-norte-americano Wolfgang Rindler (n.1924), em
1956 (Monthly Notices of the Royal Astronomical
Society 116, p. 663)], refere-se à
homogeneidade e isotropia do Universo, evidenciados nas características da
radiação primordial referida acima. A dificuldade decorre do fato de que o BB
sugere a existência de uma distribuição heterogênea, com muitas concentrações
de matéria e energia no espaço, isto porque a luz emitida no instante do BB não
teve tempo de alcançar todo o Universo, pois a grande expansão nos instantes
iniciais, fez com que cerca de 90% dos fótons (quanta de luz) dessa expansão, estivessem além do horizonte
causal do observador. O segundo dos
problemas, conhecido como problema da planura (“flatness puzzle”), foi originalmente
apresentado por Dicke e Peebles,
em 1979 (General Relativity: An Einstein Centenary Survey, Cambridge University Press),
e diz respeito à densidade O terceiro dos problemas
enfrentados pela teoria BB relaciona-se com as inhomogeneidades (“inhomogeneity puzzle”) do Universo observável, composto de
galáxias, aglomerados de galáxias e superaglomerados
de galáxias, uma vez que, por aquela teoria, esse espectro de não-uniformidade
deve ser considerado ad hoc no BB, como
parte de suas condições iniciais. Por fim, o quarto problema tem haver com a
produção de monopólos
magnéticos (MM) na ocasião do início do Universo, daí
esse problema ser conhecido como o problema dos monopólos
(“monopole puzzle”).
Conforme vimos no verbete sobre os MM, segundo a
Teoria da Grande Unificação (TGU), o próton é uma partícula instável (vida
média Para contornar os problemas
apresentados pelo modelo
(teoria) padrão BB descritos acima, acrescido da
presença incômoda da constante
cosmológica Einsteniana ( Muito embora o modelo cosmológico inflacionário de Starobinsky-Guth tivesse
contornado as dificuldades do modelo padrão BB, conforme vimos acima, aquele
modelo apresentava um outro problema pois, se a fase
de transição entre o Universo “super-resfriado” e o estado de expansão linear
atual ocorresse subitamente, haveria a formação de “bolhas” (como ocorre no
surgimento de cristais de gelo em qualquer água superfria)
que se expandiriam gradualmente e se juntariam umas às outras, até a situação
de expansão linear do Universo que perdura até hoje. Contudo, mesmo que as
“bolhas” crescessem à velocidade da luz, estariam se afastando umas das outras
e, portanto, nunca se juntariam. Essa dificuldade foi resolvida, em 1982, em
trabalhos independentes realizados pelos físicos, o russo Andrei Dimitrievich Linde (n.1948) (Physics Letters B108, p. 398), e os
norte-americanos Andréas Albrecht e Paul J. Steinhardt
(n.1952) (Physical Review Letters 48, p.
1220), ao formularem o novo
modelo cosmológico inflacionário, segundo o
qual o fato de as “bolhas” não se juntarem poderia ser
evitado se fossem tão grandes que nossa região do Universo estivesse toda
contida numa única bolha. No entanto, para que isso ocorresse, a “quebra de
simetria” deveria acontecer muito lentamente dentro da “bolha”, o que é
perfeitamente possível de acordo com a TGU, por intermédio de um mecanismo
denominado de transição
de rolamento lento (“slow rolleyer transition”). Como novos problemas foram encontrados nesse novo modelo cosmológico
inflacionário como, por exemplo, o fato de que a
“bolha” única deveria ser maior do que o Universo à época, conforme foi
mostrado pelo astrofísico inglês Stephen William Hawking (n.1942) e seus colaboradores Ian G. Moss e John M. Stewart, em 1982 (Physical Review D26, p. 2681), e que as
flutuações quânticas iniciais deveriam crescer mais do que o esperado,
indicando um tempo de rolamento muito mais lento, o próprio Linde, em 1983 (Physics Letters B129, p.
177), apresentou o modelo
cosmológico inflacionário caótico, no qual não
há transição de fase ou super-resfriamento. A idéia central desse modelo
consiste em supor uma distribuição inicial caótica de um campo Aparentemente resolvido os
principais problemas do modelo
padrão BB por intermédio do modelo inflacionário e suas variantes, restou o problema da singularidade inicial prevista
pela Teoria da Relatividade Geral de Einstein, problema esse que apresenta uma
grande dificuldade, já que na era de Planck – intervalo entre No final deste verbete, é
oportuno apresentar mais alguns aspectos curiosos sobre os modelos cosmológicos
tratados até aqui. 1) Por serem grandes
divulgadores da Ciência, Gamow e Hoyle
ganharam o Prêmio Kalinga
de Divulgação Científica da UNESCO, respectivamente, em 1956 e 1967.
Contudo, pelo que descrevemos até aqui, eles mereceriam o PNF. 2) Em 1973, o físico
norte-americano Edward P. Tryon apresentou a idéia
pioneira de que o nosso Universo teria se originado de uma flutuação quântica
do vácuo. Segundo Guth, em seu livro intitulado O Universo Inflacionário (Campus, 1997), essa idéia foi inicialmente submetida à Physical Review Letters,
que o rejeitou por ser especulativo demais. Tryon
então reescreveu o artigo original e o submeteu à Nature como uma “Carta ao Editor”. Os editores dessa revista
não só o publicaram como o destacaram (Nature 246, p.
396). É interessante ressaltar que, em 1982 (Physics Letters B117, p. 25), o físico
russo-norte-americano Alexander Vilenkin propôs uma
ampliação dessa idéia de Tryon. Ele propôs que o
Universo fosse criado por processos de tunelamento quânticos que começaram de literalmente
nada (“nothingness”), o que significaria não só a
ausência da matéria, mas também a do espaço e a do tempo. Registre-se que no
livro de Guth referido acima há “Um Relato
Irresistível de Uma das Maiores Idéias Cosmológicas do Século”, conforme indica
o próprio sub-título desse livro. Nele, também, Guth conta toda a sua história como se tornou um cientista
e suas “burrices” em não haver percebido o que os outros físicos perceberam
sobre a sua idéia de inflação, idéia essa que ele mesmo escreveu em seu caderno de notas, como sendo
uma REALIZAÇÃO
ESPETACULAR, quando a concebeu no final de 1979. 3) Em 1977 (Physical Review Letters 39, p.
898), os físicos norte-americanos George Fitzgerald Smoot
III (n.1945; PNF, 2006), M. V. Gorenstein e R. A.
Muller anunciaram que haviam observado uma anisotropia da RCFM devido à
velocidade da Terra, medida por um detector, construído por Smoot, que se encontrava a bordo do avião de
reconhecimento Lockheed-Martin U-2, em 1976. Registre que esse avião
ficou famoso por suas missões de espionagem durante a Guerra Fria. 4) Quando o PNF de 1983 foi
atribuído a Fowler e a Chandrasekhar
por suas contribuições ao entendimento da estrutura e evolução das estrelas, o
mundo científico ficou surpreso porque o
Comitê Nobel de Física (CNF) escolheu Fowler e
não Hoyle, uma vez que foi este quem resolveu a
questão da nucleossíntese,
conforme vimos acima, importante para entender a formação dos elementos
químicos nas estrelas e, também, por ser parceiro de Fowler
no famoso artigo B2FH. Segundo nos conta o físico indiano-inglês Simon Singh (n.1964) em seu livro Big Bang (op. cit.), uma possível razão para o CNF haver
esnobado Hoyle, deve-se ao fato de que este sempre se
mostrou muito franco em suas atitudes, e não colocava o decoro acima da
honestidade e da integridade. Uma dessas atitudes aconteceu quando o PNF de
1974 foi atribuído a Ryle, pela descoberta dos quasars (1948) e a Hewish (n.1924), pela descoberta dos pulsars (1967). Ele
reclamou com veemência a ausência do nome da astrônoma irlandesa Susan Jocelyn Bell Burnell (n.1943),
então colaboradora de Hewish na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, por haver sido ela a
primeira a observar, em agosto de 1967, o primeiro pulsar na Nebulosa de Caranguejo. 5) Em 1984 (General Relativity and
Gravitation 16, p. 535), o físico brasileiro
Mário Novello (n.1942) e Hans Heitzmann
propuseram um novo modelo para explicar o Universo - o Dynamical Eternal Universe Scenario (DEUS) – que descreve um Universo aberto, tipo-Friedmann,
eterno e sem singularidade, criado espontaneamente a partir da instabilidade de
um estado de vácuo, instabilidade essa induzida pela interação deste vácuo com
estruturas geométricas especiais, como o wist (estrutura da geometria de Weyl na qual as variações de comprimento são
integráveis ao longo dos caminhos fechados), no começo da fase expansiva do
Universo. Ainda segundo esse modelo, cujas primeiras idéias foram apresentadas
por Novello, em 1982 (CBPF-CS-001/82), a matéria continua sendo criada no Universo, por intermédio da
flutuação de imensos vazios no espaço-tempo, os chamados núcleos atrasados de matéria ou buracos
brancos [conceito introduzido pelo astrofísico Roger Penrose (n.1931), que apresenta uma estrutura semelhante ao
buraco negro (ver verbete nesta série), e possui um horizonte de eventos que
permite a passagem no sentido oposto, isto é, de dentro para fora] e que, em
vista disso, o Universo pode expandir-se e contrair-se entre o infinito passado
e o infinito futuro sem, contudo, passar pela singularidade do início da
criação. Nesse universo
viscoso de Novello-Heintzmann, os problemas (‘puzzles”)
do modelo padrão BB não existem e, portanto, o Universo evolui estritamente de acordo com as
leis da Física. 6) Em 18 de novembro de 7) Em 1993 (Astrophysical Journal 410, p. 437), Hoyle, Geoffrey Burbidge e Narlikar desenvolveram
o modelo cosmológico
quase estacionário partindo de um Princípio de
Mínima Ação, explicando então como a matéria e a radiação apareceram no
Universo. Esse princípio inclui a possibilidade de uma linha-mundo (equivalente
quadridimensional da trajetória tridimensional)
típica de uma partícula ter um começo. Por intermédio de um campo escalar de criação, que atua negativamente no processo de mini-criação da matéria, ele
contrabalança a energia positiva de criação. A mini-criação causa uma expansão
no Universo, que reduz o valor médio daquele campo, tornando difícil uma nova
mini-criação. A gravidade então atua superando a expansão e o Universo se
contrai, aumentando aquele campo até que nova mini-criação ocorra. Segundo esse
modelo, o Universo é eterno e infinito, alternando
expansões que duram cerca de 40 bilhões de anos, com contrações. A massa é
eternamente criada em buracos
brancos e com o valor da massa de Planck. 8) Em 1995 (Physical Review D52, p. 1837), Bharat Ratra e Peebles formularam o modelo cosmológico inflacionário aberto para explicar a origem do Universo. Nesse modelo, ao contrário de outras
teorias de inflação que pressupõem uma quantidade grande de inflação, o novo
tipo de inflação proposto - a inflação
aberta - pode produzir um Universo com 9) Em 1996 (Physical Review Letters 76, p.
2617), Magueijo, Albrecht, David Coulson
e Pedro Ferreira apresentaram um modelo para explicar, sem usar modelos
inflacionários, a anisotropia da RCFM registrada pelo COBE. Em 1999 (Physical Review D59, p. 043516), Albrecht e Magueijo apresentaram o modelo VSL (“Varying
Speed of Light”) para explicar os problemas (“puzzles”)
cosmológicos referidos neste verbete. Sobre esse modelo ver o citado livro do Mangueijo. 10) Em 30 de junho de Ao concluir este verbete destacaremos mais
algumas referências (além das já usadas), nas quais o leitor poderá obter
maiores detalhes dos modelos cosmológicos aqui tratados: George Cuncliffe McVittie, General Relativity
and Cosmology (Chapam and Hall Ltd., 1965); Jacques Merleau-Ponty,
Cosmologia del Siglo XX (Editorial Gredos, 1971}; Steven
Weinberg, Gravitation and Cosmology: Principles and Applications of the General Theory of Relativity
(John Wiley and Sons, 1972); Charles W. Misner,
Kip S. Thorne and John
Archibald Wheeler, Gravitation (W. H. Freeman and Company,
1973); Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, O Universo Inflacionário (Francisco
Alves, 1983); Joseph Silk, O Big Bang:
A Origem do Universo (EDUnB,
1985); Luís Carlos Bassalo Crispino,
Do Modelo Padrão do Big
Bang à Teoria do Universo Inflacionário (TIC/IFUSP, 1993); George Smoot e Keay Davidson,
Dobras no Tempo (Rocco, 1995); John R. Gribbin, No Início: Antes e Depois do Big Bang (Campus, 1995); Richard Morris, O Que Sabemos sobre o Universo (Jorge Zahar, 2001); Brian Greene, O Universo Elegante e Tecido do Cosmos (Companhia das
Letras, 2001; 2005); Lee Smolin, Três Caminhos para a Gravidade
Quântica (Rocco, 2002); Thyrso
Villela, Carlos Alexandre Wuensche
e Rodrigo Leonardi, Cosmologia Observacional (V Escola do CBPF, 2004); Maria
Cristina Batoni Abdalla e Thyrso
Villela Neto, Novas Janelas para o Universo (EDUNESP,
2005); Stephen Hawking e
Leonard Mlodinow, Uma Nova História do Tempo (Ediouro, 2005); Mário Novello, Cosmo e Contexto (Forense-Universitária, 1988) e O Que é Cosmologia? A Revolução do Pensamento Cosmológico (Jorge Zahar, 2006); William H. Kinney, Edward W. Kolb,
Alessandro Melchiorri e Antonio Riotto,
Physical Review D74, p. 023502 (2006) e arXiv.org/abs/astro-ph/06053358;
Ruben Aldrovandi, arXiv.gr-qc/0405104; Sabino Matarrese, Melchiorri e Riotto, Scientific American BRASIL, 61 (Junho/2007), p. 26; e map.gsf.nasa.gov/index.html. |